Minha mãe esperou até os 68 anos para tentar fazer a cirurgia nos olhos. Fez exames, consultou especialistas, se animou com a possibilidade. Estava tudo certo — menos o tempo. Morreu antes.
Ela nunca reclamava alto, mas bastava prestar atenção: dor de cabeça, dificuldade pra enxergar direito, incômodos diários que ela naturalizou.
Um dia percebi: as queixas dela estavam virando minhas. A dor dela, minha herança silenciosa.
A estética estava lá também, claro. Sempre deixada pra depois. A vida foi exigente demais pra ela se colocar em primeiro lugar.
E porque ensinaram — a ela, a mim, a tantas outras — que vaidade é pecado, luxo, futilidade. Nunca escutada.
Fiz a cirurgia que ela não fez. Por mim. Como prêmio simbólico por estar me tratando melhor. Por parar de me abandonar quando mais preciso de mim. Por não deixar que o que é leve vire urgente — e o que é importante fique esquecido.
Uma foto de 2019 me ajudou a ver como meu caso evoluiu. Eu ainda questionava a superficialidade. Percebi a evolução da minha mãe nas fotos antigas. Percebi o silêncio. Percebi as dores, mesmo que ninguém houvesse falado delas.
Hoje, no meio do turbilhão — frustrações profissionais, conversas atravessadas, esperas demasiadas — eu quis fazer mais uma limonada. Uma das boas.
E me lembrei disso tudo. Do tempo que corre. Do corpo que sente. Do cuidado que é preciso não adiar.
Fiz por mim. Mas, de certo modo, fiz também por ela.
Entre anestesias e afetos, três horas de cirurgia. O tempo parecia suspenso, mas a cabeça não. Enquanto a médica costurava os pequenos cortes que devolveriam leveza ao meu olhar, minha mente tecia outro tipo de urgência: a das palavras não ditas. Uma mensagem não enviada. Um texto inacabado. Um mal-entendido que me inquietava.
A médica riu. Com delicadeza, mas com aquela autoridade de quem sabe: “Agora não é hora de resolver o mundo.” Existem afetos que não aceitam repouso. E ideias que se recusam a esperar cicatrização. Mas, aceitei. Ela tinha razão.
Entre micropores e devaneios, voltei com um novo olhar, uma escuta mais afiada e a certeza de que não há mal-entendidos onde há espaço para cuidado.
Aprendi, naquele silêncio anestesiado, que o modo como a gente se importa também tem forma, tempo e tom. E que escutar alguém com atenção — mesmo quando ela chega confusa, entusiasmada — é um tipo raro de afeto. Agradeço aos envolvidos.
"Algumas dores não se dizem — se repetem.
Outras, a gente corta, costura, cicatriza e devolve ao mundo com novos olhos."
Monique Sé

