Porque a identidade se consolida mesmo é no outro: no reflexo que deixamos, na memória que provocamos.
Ironia das ironias: precisamos do olhar do outro pra nos construirmos — justo num mundo onde o outro mal olha, mal escuta, mal tem tempo de se perceber, quanto mais de perceber você.
Vivemos entre espelhos: uns fiéis, outros embaçados, muitos quebrados. E é nesse jogo de reflexos que a identidade se arrisca: sendo confundida, projetada, editada, desmentida.
Às vezes, a gente mal termina de se apresentar e já estão nos definindo: “a intensa”, “a fria”, “a difícil”, “a maravilhosa, mas…”.
Enquanto isso, seguimos dançando entre o que somos, o que parecemos ser e o que esperam que sejamos.
Um samba sem ensaio, um desfile sem roteiro — e, ainda assim, com cobrança de coerência e figurino adequado.
Tem gente que corre atrás da própria imagem como se fosse um ideal inalcançável. E se frustra porque o feed nunca dá conta da fenda.
Outras aprendem a caminhar com ela: sabendo que ser exige presença, e não perfeição. Que a consistência vem mais de se bancar do que de se explicar.
No consultório, já vi muita identidade sendo forjada no susto.
E muita também sendo reinventada depois de um divórcio, um luto ou um elogio inesperado de uma desconhecida no mercado.
A verdade é que a gente se encontra nos lugares mais improváveis — e se perde, às vezes, nos mais seguros.
No fim das contas, talvez o mais autêntico que a gente consiga ser é essa colcha de retalhos entre o que sentimos, o que escolhemos mostrar, o que os outros enxergam — e o que fica depois que a gente sai.
Aquela memória vaga, um jeito de rir, uma frase solta que pegou e virou afeto.
O nome disso? Identidade.
(ou pelo menos uma tentativa digna dela.)
Sem garantia de originalidade.
Sem manual completo.
E com muito orgulho da versão beta.
Monique Sé

