Ontem à noite, assisti a um filme de terror. Daqueles cheios de neblina, uivos ao longe e sombras que se mexem pelas frestas das janelas. Era sobre lobisomens. Um dos temas que mais me fascinavam quando eu era criança. Mas o filme em si quase não importava. Bastou a primeira transformação da criatura, sob a luz prateada da lua cheia, para que minha mente viajasse — não para a floresta escura do filme, mas para outra floresta, de outro tempo, de outro mundo: a fazenda do meu avô.
É impossível pensar em lobisomens sem pensar nele.
A lembrança veio como um sopro de saudade. Quando eu era pequeno, íamos visitar meu avô com frequência. Era uma verdadeira caravana de primos. Aquelas visitas eram uma mistura de expedição e festa. Nós nos espalhávamos pela casa, pelo terreiro, pelos campos. Criança em tudo quanto era canto. Mas bastava a noite cair para que todos se reunissem num mesmo lugar: ao redor de meu avô.
Ele sentava na cadeira de madeira e, com a voz firme e pausada, começava suas histórias. E que histórias! Não eram contos de fadas, eram batalhas épicas, lendas antigas, encontros com criaturas que só ousavam sair à noite.
A favorita de todos era sempre a mesma: os lobisomens que rondavam a fazenda. Segundo ele, não era raro que surgissem pela mata, nas noites de lua cheia. Lobisomens de verdade. Criaturas terríveis, de olhos flamejantes e garras afiadas. Ele jurava ter enfrentado alguns em mais de uma ocasião. E, com um olhar sério e um leve levantar de sobrancelha, completava: “Algumas vezes escapamos por pouco… Mas sempre vencemos.”
Aquelas palavras tinham o peso de uma profecia. E nós, um monte de pirralhos empilhados em torno dele, nem respirávamos. Era um silêncio tão profundo que até os grilos paravam para ouvir.
Hoje, com o coração de adulto e a mente cansada dos dias corridos, entendo com clareza algo que na infância passava despercebido: aquelas histórias não eram só para assustar. Eram, sobretudo, para proteger.
Ninguém queria imaginar uma criança se aventurando sozinha pelos arredores da fazenda, principalmente à noite, quando o mato virava labirinto. Mas meu avô era sábio. Sabia que colocar medo era, às vezes, um jeito de dar amor. E ele nos amava demais. Contava sobre lobisomens para que ninguém sequer pensasse em sair pela escuridão. E dava certo. A gente se encolhia nas redes e nos colchões espalhados pelo chão, esperando o primeiro canto do galo para ter coragem de sair.
Mas meu avô não era feito só de histórias de assombração. Era um homem de contradições fascinantes: simples e profundo. Fazendeiro de mãos calejadas, mas leitor apaixonado. Tinha pouco estudo formal, como era comum em sua época, ainda assim, adorava os livros. Tinha uma pequena coleção dos romances de Júlio Verne, que guardava como um tesouro em uma estante modesta, feita por ele mesmo.
Ele lia e relia aquelas histórias, com olhos brilhando como os de uma criança. “Vinte Mil Léguas Submarinas”, “Viagem ao Centro da Terra”, “A Volta ao Mundo em 80 Dias”… Eram seus portais para o impossível. E algumas dessas aventuras também viravam histórias para nós, suas plateias cativas. Só que, ao contrário dos lobisomens, ele nunca dizia que havia vivido essas. A ficção de Verne ele deixava como era: mágica, mas distante. Já os lobisomens… Ah, esses moravam ali mesmo, atrás do milharal.
Com o tempo, claro, a infância se despede. E o mundo adulto se apresenta com suas verdades racionais, suas obrigações, seus calendários. Hoje sei que meu avô provavelmente nunca viu um lobisomem. Mas sei, com ainda mais certeza, que ele viu cada um de nós. E nos quis seguros, atentos, sonhadores. Ele nos presenteou com algo raro: o encantamento.
Curiosamente, nunca li um livro de Júlio Verne. Mesmo sabendo que são obras-primas, que mudaram o mundo e inspiraram gerações. Sempre que penso em começar um deles, algo me freia. Não é desinteresse, é uma espécie de reverência. Medo de que a prosa de Verne, por mais bela que seja, me leve a um lugar que apague o som da voz do meu avô.
Porque, para mim, as maiores aventuras de Júlio Verne sempre foram contadas com sotaque do interior, no alpendre da fazenda, com cheiro de café e bolo de aipim. E os lobisomens? Continuam vivos. Não nas florestas escuras ou nas telas de cinema, mas na memória mais terna que guardo do meu avô. Ele, sim, era um verdadeiro contador de lendas — um mestre em transformar medo em afeto, e histórias em eternidade.
Adelson Sena

