Há processos que não se encerram com uma sentença. Permanecem no corpo, nas estruturas que resistimos a demolir por dentro.
Quem viveu comigo não foi o juiz.
Quem ergueu a construção, carregou os tijolos e recolheu os cacos fui eu — com lucidez, cansaço e sarcasmo em doses homeopáticas.
Mas, ainda assim, tentam sequestrar a história por vias cartoriais.
“Petição não substitui vivência” — dá vontade de gritar forte.
É curioso (ou trágico, dependendo da fase da lua) ver quem dizia “você não vai conseguir sozinha” agora alegar vulnerabilidade para manipular a Justiça.
Num mundo do avesso, tem vezes que cola.
Muitas vezes, quem joga sujo se beneficia com manobras judiciais — mesmo que não tenha sido a “intenção” da Justiça.
Não sei se rio, se oro ou se continuo anexando prints.
Talvez tudo ao mesmo tempo.
A depender do humor da juíza — e da maré.
A Justiça, quando chega, vem cansada.
Cheia de papéis solenes que dizem muito e revelam pouco.
Mesmo assim, sigo com fé.
Não a fé cega.
A fé da reconstrução — aquela que Napoleon Hill nomeou como força criadora: a certeza de que nada se perde.
Sou testemunha de que existe uma força que transforma dor em ação, escombros em base, ironia em texto.
Tudo vira combustível.
Tudo vira texto.
E, às vezes, até prova nos autos.
A vida me ensinou a transformar indignação em elegância.
Sarcasmo, em ferramenta ética.
A escrita virou contenção e criação: uma segunda casa sobre os escombros da primeira.
Dessa vez, inalienável.
Claro que o humor ácido serve como escudo — e que bom que serve.
Mas não escrevo para rir da dor.
Escrevo para reinscrevê-la em um lugar onde ela não me paralise.
E, com sorte, ajude outras a não se calarem também.
Monique Sé

