Entre bastidores e cicatrizes: o que a moda e a escrita nos revelam

A psique humana é uma costura — de imagens, memórias, gestos interrompidos. Como terapeuta de abordagem fenomenológico-existencial, me acostumei a ouvir entrelinhas e a acolher o que não se encaixa nas vitrines da normalidade. Como autora, fui aprendendo a escutar também os silêncios de um texto — aquilo que ressoa entre o que se escreve e o que se vive.

Quando recebi o convite para contribuir com o livro Entre Poses e Prosas, algo em mim se moveu. O mundo da moda, com seus bastidores glamorosos e cruéis, tem mais em comum com a alma humana do que costumamos imaginar: ambos lidam com exposição e ocultamento, brilho e dor, corpo e persona. Entre o salto alto e o vazio existencial, às vezes, só cabe um bom suspiro. Ou um bom texto.

Escrevo meu capítulo com os olhos de quem escuta — e as palavras de quem já precisou, muitas vezes, reinventar-se. A escuta clínica me ensinou que ninguém é só o que mostra. Somos também o que hesitamos em revelar, o que encenamos para sermos aceitos, o que vestimos para suportar o mundo.

A escrita, tal como a moda, pode ser performance. Mas também pode ser verdade. E talvez o grande desafio de quem escreve (ou desfila, ou cura, ou sobrevive) seja justamente esse: saber quando se está vestindo um personagem — e quando, finalmente, é possível tirar o figurino e respirar.

Porque no fundo, todo texto é uma tentativa de ficar nu com alguma dignidade. E todo corpo, mesmo o mais sarado ou maquiado, abriga dúvidas que não se resolvem com chá detox nem com endorfina.

Falo como alguém que ama o movimento — no tatame, na caneta, no prato. Que acredita que saúde não é a ausência de dor, mas a capacidade de continuar dançando com ela. E que humor, às vezes, é só uma forma elegante de dizer: sobrevivi.

Que este livro — e tantos outros que brotam deste Conselho Editorial — nos inspire a dizer o que precisa ser dito. Mesmo quando dói. Mesmo quando brilha demais. Mesmo quando exige que a gente tire o salto, a máscara e até o discurso ensaiado.

No fim das contas, talvez a prosa mais bonita seja aquela que começa quando a pose finalmente cede.

Monique Sé

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