Aerialista
Meu coração,meu corpo,minha alma e minha mente tornaram-se Aerialista.E o que é esse “ser” — quase um trava-língua encantado?É artista circense, é performer do ar:aquele que dança suspenso no invisível,que desafia o chão com o próprio fôlego,que voa sem asas,que gira, enrola, desenrola,em tecidos, liras, trapézios —bordando o céu com sua presença.Para mim, fazer acrobacias aéreasé o mesmo que fazer poesia no ar.Quando tudo se alinha com a minha forma de sentir o mundo — corpo, gesto, emoção — sou palavra que se ergue.Sou verso que se eleva.Sou o poema que sente o mundode cabeça para baixo — e de alma inteira.Meu primeiro contato com o tecido acrobáticofoi na forma do casulo.Ali, o tempo era outro.Os olhos não viam,mas a pele… a pele enxergava.Cada pensamento vinha coberto de névoa,como se minha infância cochichasse,baixinho, no fundo do meu ouvido.Às vezes era minha avó,com seu chá morno numa xícara sem asa.Às vezes era a menina —aquela, com olhos de ternura —de onde ainda me vejo.Na suspensão do silêncio,aprendi a mastigar de novoo que achava já ter engolido pra sempre.Ali, fui embalada.Voltei ao útero.O casulo me ninou, me acalmou,e preparou-me para eclodir —com segurança.Depois, o mundo já era espetáculo.Por entre os casulos suspensos,artistas da pirofagia cuspiram suas labaredas,lembrando que engolir fogoé coisa de quem nasceu em chamas.E no mesmo fôlego em que o fogo dançava,a perna-de-pau atravessava o tempo —de ferramenta romana a invenção sublime,agora lúdica, quase etérea,com seus passos improváveis.As cortinas se abrem.E, por detrás delas,atravessa o salão um emaranhado de tecidos coloridos, vibrantes —como se o abdome de um fantasma aracnídeotivesse vomitado a grande teia do espetáculo.Na suspensão, todo o peso se revela levezao mundo nos olha.O abraço lá em cima —corpos entrelaçados sobre as cabeças da Terra.No tecido laranja, no nosso ponto de partida.Uma enrolada de perna,uma torção de braço.As costas se encontram.Nos viramos, lentamente.Pela lateral dos ombros, nos olhamos.Nos reconhecemos.A mulher de cabelos ruivos — de costas para mim, no centro sagrado —com a outra metade da laranja.Nossas faces se ocultam.Nossos olhos carregam o segredo do instante.Os corpos giram.Os tecidos giram com eles.E a cena se refaz:agora, de costas,encaixadas pelas escápulas,mãos fechadas,presas à metade do tecido.A força dos braços e do abdômennos leva ao primeiro degrauda enrolada que ainda não se revelou.Subimos.Mais um degrau.Mais um ponto da teia,rumo ao teto.No terceiro degrau da figura —enlaçadas na força do abdômen —nos encontramos.Soltamos os braços.Ficamos.Presas apenas pelas pernas,tecendo com os corpos uma nova suspensão.Nos abraçamos no meio.Nos enroscamos no ar.Enquanto isso, lá embaixo,a plateia — em êxtase —era atravessada por artistas-disfarceque abraçavam o públicocomo se fossem gente comum,misturando os mundos.No estalar de dedos invisíveis,o transe daquela atmosfera se desfez.Nossos corpos desceram,suaves,como se não houvesse osso.E então:palmas.assovios.palmas.palma.Foi incrível.Foi perfeito.E pensar que tudo começou num casulo.— É por onde a vida começa. Emanuela Lopes01/07/2025

