Crônicas

Quando o entusiasmo não suporta o limite

Há encontros que começam sob o signo do entusiasmo.Trocas rápidas, afinidades percebidas, a sensação de que algo interessante pode nascer dali. Mas o verdadeiro teste de uma relação — seja pessoal, profissional ou intelectual — não está no entusiasmo inicial.Está no primeiro limite. O limite desorganiza fantasias. Interrompe idealizações. Retira do outro o lugar que projetamos nele. Quando alguém não suporta um limite simples — de tempo, de ritmo, de disponibilidade — algo importante se revela. Não sobre quem colocou o limite, mas sobre quem não conseguiu habitá-lo. Na clínica, sabemos: a idealização costuma vir acompanhada de uma expectativa silenciosa — “seja aquilo que imaginei”.Quando essa expectativa não é atendida, o entusiasmo pode se transformar rapidamente em frustração, cobrança ou ataque. Limite não é rejeição. Mudança de disponibilidade não é falsidade. Priorizar a própria realidade não é frieza. É maturidade. Há pessoas que só conseguem se relacionar enquanto o outro permanece disponível, leve, admirável e aberto.Quando o outro se mostra ocupado, complexo, real — o vínculo se rompe. E tudo bem. Nem todo encontro precisa continuar. Nem toda afinidade inicial é destino. Algumas servem apenas para nos lembrar de algo essencial: Seguir adiante, nesses casos, não é perda.É discernimento. Monique SéPsicóloga, professora, empresária e escritora

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Onde nascem as histórias?

De onde vêm as histórias? Elas nascem nos recantos silenciosos da alma, nos sussurros do vento que atravessa uma cidade adormecida, ou talvez no brilho fugaz de um olhar trocado em meio à multidão. Para o escritor, o mundo não é apenas um lugar para se viver, mas um universo infinito de possibilidades, um solo fértil onde cada semente de observação pode germinar e se transformar em uma floresta de narrativas. Muitos acreditam que para escrever um livro é preciso esperar por um relâmpago de inspiração, uma musa que desce dos céus com um enredo completo e personagens prontos. Mas a verdade é que as histórias não são encontradas; elas são construídas. Nascem da disciplina diária de sentar-se diante da página em branco, mesmo quando as palavras parecem distantes. Nascem da coragem de explorar as próprias vulnerabilidades, medos e alegrias, transformando o caos interno em uma ordem que pode ser compartilhada. Cada livro é um ato de teimosia e fé. É a teimosia de continuar digitando quando a dúvida grita que ninguém se importará. É a fé de que, em algum lugar, um leitor desconhecido encontrará um lar, um espelho ou uma janela naquelas palavras que você com tanto esforço organizou. A escrita é uma jornada solitária, repleta de becos sem saída e de personagens que se recusam a cooperar. No entanto, é nessa solidão que o escritor encontra sua voz mais autêntica. As histórias nascem da curiosidade. Nascem quando você se pergunta “e se?”. E se aquele velho casarão abandonado guardasse um segredo de amor? E se a caixa de cartas da sua avó revelasse uma vida que ninguém conhecia? E se o futuro não for como imaginamos? Cada pergunta é uma porta. Escrever é ter a ousadia de girar a maçaneta e explorar o que há do outro lado, sem medo do que vai encontrar. O ato de escrever um livro é, em sua essência, um ato de generosidade. É pegar um fragmento do seu mundo interior – uma ideia, um sentimento, uma memória, e polir até que ele brilhe o suficiente para iluminar o caminho de outra pessoa. É criar um refúgio para quem precisa escapar, um desafio para quem busca reflexão e um amigo para quem se sente só. Portanto, se você sente o chamado para escrever, não espere pelo momento perfeito. As histórias já vivem dentro de você, nas experiências que acumulou, nas pessoas que amou, nas paisagens que observou e nos sonhos que ousou sonhar. Elas nascem no exato instante em que você decide que sua voz merece ser ouvida e que suas ideias são dignas de existir além dos limites da sua mente. Pegue sua caneta ou abra seu computador e comece. O mundo está esperando para ouvir o que você tem a dizer. As histórias nascem no seu compromisso com a palavra. Adelson Sena

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Fé em Juízo

Há processos que não se encerram com uma sentença. Permanecem no corpo, nas estruturas que resistimos a demolir por dentro.Quem viveu comigo não foi o juiz.Quem ergueu a construção, carregou os tijolos e recolheu os cacos fui eu — com lucidez, cansaço e sarcasmo em doses homeopáticas.Mas, ainda assim, tentam sequestrar a história por vias cartoriais.“Petição não substitui vivência” — dá vontade de gritar forte.É curioso (ou trágico, dependendo da fase da lua) ver quem dizia “você não vai conseguir sozinha” agora alegar vulnerabilidade para manipular a Justiça.Num mundo do avesso, tem vezes que cola.Muitas vezes, quem joga sujo se beneficia com manobras judiciais — mesmo que não tenha sido a “intenção” da Justiça.Não sei se rio, se oro ou se continuo anexando prints.Talvez tudo ao mesmo tempo.A depender do humor da juíza — e da maré.A Justiça, quando chega, vem cansada.Cheia de papéis solenes que dizem muito e revelam pouco.Mesmo assim, sigo com fé.Não a fé cega.A fé da reconstrução — aquela que Napoleon Hill nomeou como força criadora: a certeza de que nada se perde.Sou testemunha de que existe uma força que transforma dor em ação, escombros em base, ironia em texto.Tudo vira combustível.Tudo vira texto.E, às vezes, até prova nos autos.A vida me ensinou a transformar indignação em elegância.Sarcasmo, em ferramenta ética.A escrita virou contenção e criação: uma segunda casa sobre os escombros da primeira.Dessa vez, inalienável.Claro que o humor ácido serve como escudo — e que bom que serve.Mas não escrevo para rir da dor.Escrevo para reinscrevê-la em um lugar onde ela não me paralise.E, com sorte, ajude outras a não se calarem também. Monique Sé

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A rebelião silenciosa das páginas

Em um mundo onde seu celular vibra mais que um liquidificador em dia de vitamina e a sua capacidade de atenção foi sequestrada por vídeos de 15 segundos, falar sobre livros pode parecer tão “vintage” quanto usar um orelhão. Mas vamos ser sinceros: no meio dessa maratona digital, os livros são mais do que papel e tinta; eles são um ato de rebeldia, um spa para o cérebro e, talvez, a nossa salvação. Pense no livro como o seu portal pessoal de desintoxicação digital. Enquanto as telas nos bombardeiam com notificações, a leitura de um livro físico exige uma coisa quase revolucionária hoje em dia: foco. Não há pop-ups tentando vender algo, nem comentários raivosos para desviar sua atenção. É só você e um universo inteiro contido em páginas. Estudos indicam que a leitura em papel melhora a concentração e a compreensão, especialmente em textos mais longos. É como fazer musculação para o seu cérebro, só que sem a parte de suar e reclamar. Além disso, o livro físico oferece uma experiência sensorial que nenhum dispositivo pode replicar. O cheiro de um livro novo (ou de um velhinho de sebo), a sensação de virar a página, o peso reconfortante nas mãos… são pequenos prazeres que nos ancoram no momento presente. Em um mundo de distrações infinitas, essa conexão tátil é um verdadeiro refúgio. A tecnologia tenta imitar essa experiência, mas convenhamos, deslizar o dedo numa tela não tem o mesmo charme de conquistar mais um capítulo. “Mas eu não tenho tempo!” – a desculpa mais popular do nosso século. A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” aponta que a falta de tempo é a principal barreira para a leitura. No entanto, muitos de nós passamos horas rolando feeds infinitos. A tecnologia, vista por muitos como vilã, pode na verdade ser uma aliada. Que tal trocar 20 minutos de redes sociais por 20 minutos de leitura? Pode ser em um e-reader, que combina a praticidade digital com uma tela mais confortável para os olhos, ou no bom e velho formato de papel. O importante é começar. Ler é um superpoder acessível a todos. Expande o vocabulário, estimula a criatividade, desenvolve o pensamento crítico e, comprovadamente, reduz o estresse. Em um cenário onde a informação é rápida e superficial, a leitura profunda nos ensina a refletir, a questionar e a formar nossas próprias opiniões. Então, da próxima vez que se sentir sobrecarregado pelo caos digital, rebele-se. Desligue as notificações, pegue um livro e mergulhe em uma boa história. Seja para aprender algo novo, viajar para mundos distantes ou simplesmente para encontrar um pouco de paz, os livros continuam sendo nossos guias mais leais e silenciosos. Eles não precisam de bateria, não travam e nunca vão te deixar na mão no meio de uma frase para uma atualização de software. Em um mundo que grita por nossa atenção, o silêncio de um livro é o som mais revolucionário que existe. Adelson Sena

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Pra que serve o seguro de vida se eu já não estarei aqui?

Essa é uma pergunta comum — e legítima. E, legitimando a minha condição de escritora-artista-empresária, posso te dizer: assim como a escrita acolhe os que virão, o seguro de vida ampara os que ficarão em nossa ausência. Ambos se oferecem como ato de amor para um tempo em que já não estaremos presentes. Quem escreve planta palavras como quem garante abrigo: deixa legado, teto contra o esquecimento, calor contra o luto da impermanência física, mapa para reencontros e encontros — de pensamentos, de histórias, do que talvez parecesse perdido. O seguro de vida protege os afetos. Protege suas pessoas para muito além do agora. A escrita também é assim — pensa à frente do tempo. Ela segura a palavra que nem a morte pode carregar. Contratar um seguro de vida é mais que um gesto de responsabilidade: é um gesto de cuidado. É pensar naqueles que continuarão sua história, além da sua presença. Ler é fogo aceso na lareira da memória. E o seguro de vida compartilha desse poder: o de reescrever destinos. Se você enxerga o seguro de vida apenas como algo ligado à morte, talvez ainda não conheça a verdadeira amplitude de coberturas que esse produto pode oferecer. Mais do que amparar financeiramente seus beneficiários em caso de falecimento, o seguro de vida pode ser uma ferramenta de proteção ainda em vida, com coberturas que atuam em situações inesperadas e desafiadoras, como: • IPA – Invalidez Permanente por Acidente • IFPD – Invalidez Funcional por Doença • Doenças Graves • Diárias por Incapacidade Temporária (DIT) • E muitas outras. Ou seja: o seguro de vida não é só sobre a morte. É também sobre viver com mais tranquilidade diante dos riscos do caminho. Se você é o provedor da sua casa, é autônomo, empresário ou simplesmente quer garantir que sua família ou seu futuro estejam protegidos contra o imprevisto, vale considerar esse tipo de proteção como uma parte da sua organização financeira. Quem somos nós? Aproveito para me apresentar: somos a CORBRAS, uma corretora com atuação em todo o território nacional, e por meio desta parceria com a Editora BFK, temos o prazer de oferecer a você condições exclusivas, orientação personalizada e acesso a um portfólio completo de seguros. Vamos aprofundar um pouco mais ? 1. “Seguro de Vida em Vida: As Coberturas Que Você Não Sabia Que Existiam” • Explicação sobre cada cobertura que pode ser usada em vida; • Exemplos (ex: autônomo com DIT, empresário com IFPD) 2. “Seguro de Vida é Só para Quem Tem Filho?” • Quebra de mitos: solteiros, casais sem filhos, idosos… • Planejamento financeiro e sucessório 3. “Quanto Custa um Seguro de Vida? Spoiler: Bem Menos do Que Você Imagina” • Mostrar simulações reais (sem números engessados) • Falar sobre custo-benefício, e diferenciação por idade, profissão, etc. 4. “Como Escolher o Seguro de Vida Ideal para o Seu Perfil” • Tipos de seguro (tradicional, resgatável, temporário etc.) • Dicas práticas para contratação e o papel da corretora na orientação Consulte-nos! CORBRAS Corretora Brasileira de Consultoria em Seguros Ltda. 71.3033-7300 corbras_corretora_seguros Emanuela Lopesescritora-artista, empresária-corretora de seguros

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Lobisomens

Ontem à noite, assisti a um filme de terror. Daqueles cheios de neblina, uivos ao longe e sombras que se mexem pelas frestas das janelas. Era sobre lobisomens. Um dos temas que mais me fascinavam quando eu era criança. Mas o filme em si quase não importava. Bastou a primeira transformação da criatura, sob a luz prateada da lua cheia, para que minha mente viajasse — não para a floresta escura do filme, mas para outra floresta, de outro tempo, de outro mundo: a fazenda do meu avô. É impossível pensar em lobisomens sem pensar nele. A lembrança veio como um sopro de saudade. Quando eu era pequeno, íamos visitar meu avô com frequência. Era uma verdadeira caravana de primos. Aquelas visitas eram uma mistura de expedição e festa. Nós nos espalhávamos pela casa, pelo terreiro, pelos campos. Criança em tudo quanto era canto. Mas bastava a noite cair para que todos se reunissem num mesmo lugar: ao redor de meu avô. Ele sentava na cadeira de madeira e, com a voz firme e pausada, começava suas histórias. E que histórias! Não eram contos de fadas, eram batalhas épicas, lendas antigas, encontros com criaturas que só ousavam sair à noite. A favorita de todos era sempre a mesma: os lobisomens que rondavam a fazenda. Segundo ele, não era raro que surgissem pela mata, nas noites de lua cheia. Lobisomens de verdade. Criaturas terríveis, de olhos flamejantes e garras afiadas. Ele jurava ter enfrentado alguns em mais de uma ocasião. E, com um olhar sério e um leve levantar de sobrancelha, completava: “Algumas vezes escapamos por pouco… Mas sempre vencemos.” Aquelas palavras tinham o peso de uma profecia. E nós, um monte de pirralhos empilhados em torno dele, nem respirávamos. Era um silêncio tão profundo que até os grilos paravam para ouvir. Hoje, com o coração de adulto e a mente cansada dos dias corridos, entendo com clareza algo que na infância passava despercebido: aquelas histórias não eram só para assustar. Eram, sobretudo, para proteger. Ninguém queria imaginar uma criança se aventurando sozinha pelos arredores da fazenda, principalmente à noite, quando o mato virava labirinto. Mas meu avô era sábio. Sabia que colocar medo era, às vezes, um jeito de dar amor. E ele nos amava demais. Contava sobre lobisomens para que ninguém sequer pensasse em sair pela escuridão. E dava certo. A gente se encolhia nas redes e nos colchões espalhados pelo chão, esperando o primeiro canto do galo para ter coragem de sair. Mas meu avô não era feito só de histórias de assombração. Era um homem de contradições fascinantes: simples e profundo. Fazendeiro de mãos calejadas, mas leitor apaixonado. Tinha pouco estudo formal, como era comum em sua época, ainda assim, adorava os livros. Tinha uma pequena coleção dos romances de Júlio Verne, que guardava como um tesouro em uma estante modesta, feita por ele mesmo. Ele lia e relia aquelas histórias, com olhos brilhando como os de uma criança. “Vinte Mil Léguas Submarinas”, “Viagem ao Centro da Terra”, “A Volta ao Mundo em 80 Dias”… Eram seus portais para o impossível. E algumas dessas aventuras também viravam histórias para nós, suas plateias cativas. Só que, ao contrário dos lobisomens, ele nunca dizia que havia vivido essas. A ficção de Verne ele deixava como era: mágica, mas distante. Já os lobisomens… Ah, esses moravam ali mesmo, atrás do milharal. Com o tempo, claro, a infância se despede. E o mundo adulto se apresenta com suas verdades racionais, suas obrigações, seus calendários. Hoje sei que meu avô provavelmente nunca viu um lobisomem. Mas sei, com ainda mais certeza, que ele viu cada um de nós. E nos quis seguros, atentos, sonhadores. Ele nos presenteou com algo raro: o encantamento. Curiosamente, nunca li um livro de Júlio Verne. Mesmo sabendo que são obras-primas, que mudaram o mundo e inspiraram gerações. Sempre que penso em começar um deles, algo me freia. Não é desinteresse, é uma espécie de reverência. Medo de que a prosa de Verne, por mais bela que seja, me leve a um lugar que apague o som da voz do meu avô. Porque, para mim, as maiores aventuras de Júlio Verne sempre foram contadas com sotaque do interior, no alpendre da fazenda, com cheiro de café e bolo de aipim. E os lobisomens? Continuam vivos. Não nas florestas escuras ou nas telas de cinema, mas na memória mais terna que guardo do meu avô. Ele, sim, era um verdadeiro contador de lendas — um mestre em transformar medo em afeto, e histórias em eternidade. Adelson Sena

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Manual de Identidade (ironicamente incompleto)

Porque a identidade se consolida mesmo é no outro: no reflexo que deixamos, na memória que provocamos.Ironia das ironias: precisamos do olhar do outro pra nos construirmos — justo num mundo onde o outro mal olha, mal escuta, mal tem tempo de se perceber, quanto mais de perceber você. Vivemos entre espelhos: uns fiéis, outros embaçados, muitos quebrados. E é nesse jogo de reflexos que a identidade se arrisca: sendo confundida, projetada, editada, desmentida.Às vezes, a gente mal termina de se apresentar e já estão nos definindo: “a intensa”, “a fria”, “a difícil”, “a maravilhosa, mas…”. Enquanto isso, seguimos dançando entre o que somos, o que parecemos ser e o que esperam que sejamos.Um samba sem ensaio, um desfile sem roteiro — e, ainda assim, com cobrança de coerência e figurino adequado. Tem gente que corre atrás da própria imagem como se fosse um ideal inalcançável. E se frustra porque o feed nunca dá conta da fenda.Outras aprendem a caminhar com ela: sabendo que ser exige presença, e não perfeição. Que a consistência vem mais de se bancar do que de se explicar. No consultório, já vi muita identidade sendo forjada no susto.E muita também sendo reinventada depois de um divórcio, um luto ou um elogio inesperado de uma desconhecida no mercado.A verdade é que a gente se encontra nos lugares mais improváveis — e se perde, às vezes, nos mais seguros. No fim das contas, talvez o mais autêntico que a gente consiga ser é essa colcha de retalhos entre o que sentimos, o que escolhemos mostrar, o que os outros enxergam — e o que fica depois que a gente sai.Aquela memória vaga, um jeito de rir, uma frase solta que pegou e virou afeto. O nome disso? Identidade.(ou pelo menos uma tentativa digna dela.) Sem garantia de originalidade.Sem manual completo.E com muito orgulho da versão beta. Monique Sé

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Entre bastidores e cicatrizes: o que a moda e a escrita nos revelam

A psique humana é uma costura — de imagens, memórias, gestos interrompidos. Como terapeuta de abordagem fenomenológico-existencial, me acostumei a ouvir entrelinhas e a acolher o que não se encaixa nas vitrines da normalidade. Como autora, fui aprendendo a escutar também os silêncios de um texto — aquilo que ressoa entre o que se escreve e o que se vive. Quando recebi o convite para contribuir com o livro Entre Poses e Prosas, algo em mim se moveu. O mundo da moda, com seus bastidores glamorosos e cruéis, tem mais em comum com a alma humana do que costumamos imaginar: ambos lidam com exposição e ocultamento, brilho e dor, corpo e persona. Entre o salto alto e o vazio existencial, às vezes, só cabe um bom suspiro. Ou um bom texto. Escrevo meu capítulo com os olhos de quem escuta — e as palavras de quem já precisou, muitas vezes, reinventar-se. A escuta clínica me ensinou que ninguém é só o que mostra. Somos também o que hesitamos em revelar, o que encenamos para sermos aceitos, o que vestimos para suportar o mundo. A escrita, tal como a moda, pode ser performance. Mas também pode ser verdade. E talvez o grande desafio de quem escreve (ou desfila, ou cura, ou sobrevive) seja justamente esse: saber quando se está vestindo um personagem — e quando, finalmente, é possível tirar o figurino e respirar. Porque no fundo, todo texto é uma tentativa de ficar nu com alguma dignidade. E todo corpo, mesmo o mais sarado ou maquiado, abriga dúvidas que não se resolvem com chá detox nem com endorfina. Falo como alguém que ama o movimento — no tatame, na caneta, no prato. Que acredita que saúde não é a ausência de dor, mas a capacidade de continuar dançando com ela. E que humor, às vezes, é só uma forma elegante de dizer: sobrevivi. Que este livro — e tantos outros que brotam deste Conselho Editorial — nos inspire a dizer o que precisa ser dito. Mesmo quando dói. Mesmo quando brilha demais. Mesmo quando exige que a gente tire o salto, a máscara e até o discurso ensaiado. No fim das contas, talvez a prosa mais bonita seja aquela que começa quando a pose finalmente cede. Monique Sé

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Aerialista

Meu coração,meu corpo,minha alma e minha mente tornaram-se Aerialista.E o que é esse “ser” — quase um trava-língua encantado?É artista circense, é performer do ar:aquele que dança suspenso no invisível,que desafia o chão com o próprio fôlego,que voa sem asas,que gira, enrola, desenrola,em tecidos, liras, trapézios —bordando o céu com sua presença.Para mim, fazer acrobacias aéreasé o mesmo que fazer poesia no ar.Quando tudo se alinha com a minha forma de sentir o mundo — corpo, gesto, emoção — sou palavra que se ergue.Sou verso que se eleva.Sou o poema que sente o mundode cabeça para baixo — e de alma inteira.Meu primeiro contato com o tecido acrobáticofoi na forma do casulo.Ali, o tempo era outro.Os olhos não viam,mas a pele… a pele enxergava.Cada pensamento vinha coberto de névoa,como se minha infância cochichasse,baixinho, no fundo do meu ouvido.Às vezes era minha avó,com seu chá morno numa xícara sem asa.Às vezes era a menina —aquela, com olhos de ternura —de onde ainda me vejo.Na suspensão do silêncio,aprendi a mastigar de novoo que achava já ter engolido pra sempre.Ali, fui embalada.Voltei ao útero.O casulo me ninou, me acalmou,e preparou-me para eclodir —com segurança.Depois, o mundo já era espetáculo.Por entre os casulos suspensos,artistas da pirofagia cuspiram suas labaredas,lembrando que engolir fogoé coisa de quem nasceu em chamas.E no mesmo fôlego em que o fogo dançava,a perna-de-pau atravessava o tempo —de ferramenta romana a invenção sublime,agora lúdica, quase etérea,com seus passos improváveis.As cortinas se abrem.E, por detrás delas,atravessa o salão um emaranhado de tecidos coloridos, vibrantes —como se o abdome de um fantasma aracnídeotivesse vomitado a grande teia do espetáculo.Na suspensão, todo o peso se revela levezao mundo nos olha.O abraço lá em cima —corpos entrelaçados sobre as cabeças da Terra.No tecido laranja, no nosso ponto de partida.Uma enrolada de perna,uma torção de braço.As costas se encontram.Nos viramos, lentamente.Pela lateral dos ombros, nos olhamos.Nos reconhecemos.A mulher de cabelos ruivos — de costas para mim, no centro sagrado —com a outra metade da laranja.Nossas faces se ocultam.Nossos olhos carregam o segredo do instante.Os corpos giram.Os tecidos giram com eles.E a cena se refaz:agora, de costas,encaixadas pelas escápulas,mãos fechadas,presas à metade do tecido.A força dos braços e do abdômennos leva ao primeiro degrauda enrolada que ainda não se revelou.Subimos.Mais um degrau.Mais um ponto da teia,rumo ao teto.No terceiro degrau da figura —enlaçadas na força do abdômen —nos encontramos.Soltamos os braços.Ficamos.Presas apenas pelas pernas,tecendo com os corpos uma nova suspensão.Nos abraçamos no meio.Nos enroscamos no ar.Enquanto isso, lá embaixo,a plateia — em êxtase —era atravessada por artistas-disfarceque abraçavam o públicocomo se fossem gente comum,misturando os mundos.No estalar de dedos invisíveis,o transe daquela atmosfera se desfez.Nossos corpos desceram,suaves,como se não houvesse osso.E então:palmas.assovios.palmas.palma.Foi incrível.Foi perfeito.E pensar que tudo começou num casulo.— É por onde a vida começa. Emanuela Lopes01/07/2025

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